quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O preço do amanhã ( In time - E.U.A. 2011)


            O preço do amanhã  é uma metáfora ao capitalismo e a modernidade, usando a falta de tempo e a necessidade de juventude eterna do homem como fonte monetária (isso mesmo), o filme mistura ação e ficção cientifica, inserindo inclusive o mito de Robin Hood a trama. Uma premissa interessante, apesar de um pouco absurda. E justamente aí reside o principal problema do novo trabalho do bom diretor e roteirista neozolandes Andrew Niccol (Gattaca, O senhor das armas). Utilizando a falta de tempo como pretexto para seqüências de ação desenfreada , intercaladas com fiapos de estória com atores jovens e sem prestigio (em sua maioria), o novo projeto de Niccol deixa de lado  os elementos que o definiram como grande realizador de filmes de ficção cientifica, em determinado ponto, fica a sensação de estarmos assistindo a um filme do Michael Bay (com orçamento reduzido, é claro), e para um realizador como ele, isso é imperdoável.

            No futuro o homem consegue bloquear o gene do envelhecimento, todos agora vivem normalmente até os 25 anos e depois ganham um ano de vida. Para viver mais que esse ano, é preciso comprar seu tempo. Quem tem dinheiro vive pra sempre, quem não tem, ganha prazo de validade e precisa viver na constante tensão para se manter vivo. Will Sallas (Justin Timberlake) é um jovem que vive em condições precárias com a mãe, após salvar um rico desconhecido que transitava em seu setor, ele ganha muito tempo e após a morte da mãe (a pobreza aqui também mata), ele resolve se vingar destruindo todo o sistema. É o indivíduo contra o capitalismo.   
            Tendo várias ficções cientificas em sua filmografia, Niccol sempre foi eficiente na construção de universos futuristas (em sua maioria), mas calcados na realidade,  com elementos interessantes que os distingue, ao mesmo tempo em que nos aproxima daquela realidade, mas neste filme, desde a premissa, a trama foge demais da realidade e seu diretor perde a mão após determinado ponto. O roteiro escrito pelo proprio Niccol tenta soar como uma crítica a determinados seguimentos da sociedade moderna, a idéia até é boa, mas outros projetos já foram mais bem  sucedidos ao misturar protesto com entretenimento. O roteiro como um todo é pretensioso, e falha na construção não só do universo, mas também na construção de seus personagens. O background de cada um é pouco explorado, a estória da família Sallas ocupa muito pouco tempo de tela, a mãe de Will morre tão rápido, e de uma maneira tão estúpida, que fica impossível o espectador se identificar com a dor do rapaz. E o pai do rapaz é lembrado constantemente pelo líder dos minuteman (óbvia referência a Watchmen),aliás, fala-se tanto nele que confesso ter esperado pela ressurreição do mesmo, o que não acontece. As motivações são fracas, e o envolvimento entre os personagens também é frágil. O casal de protagonistas não convence, e muito se deve ao pouco carisma dos atores (uma situação interessante, pois aspectos da própria trama acabaram por prejudicar a produção). Contando com coadjuvantes pouco interessantes, o roteiro se usa de sua premissa como desculpa para criar seqüências de ação desenfreada, a proposta da falta de tempo ajuda muito nessa correria. Mas aí vem outro problema, esse projeto certamente será uma decepção para os fãs de filmes de ação descerebrados, pois suas seqüências são burocráticas e pouco imaginativas, não funcionando também neste quesito. 
             O jovem elenco é recheado de caras novas e falta carisma a maioria deles, Justin Timberlake (Alpha dog, A rede social) é bom ator (por incrível que pareça), seus trabalhos anteriores provam isso, e aqui ele faz o que pode, o filme não naufraga por sua causa, mas lhe falta carisma para dar brilho a ele. Amanda Seyfried (Querido John, A garota da capa vermelha) faz o papel da jovem rica mimada e revoltada que quer mudar de vida, ela definitivamente não funciona nem como donzela em perigo, nem como heroína de ação, falta carisma e intensidade, e a ausência de química com Timberlake prejudica o filme. O grande destaque fica por conta da boa atuação do excelente Cillian Murphy (Extermínio, A origem), que interpreta o personagem mais complexo e interessante da projeção, um policial honesto (ele não aceita propina) que é tratado como vilão, mas que no fim das contas é só mais um trabalhador a serviço da manutenção do sistema (assim como você e eu).
            Esse projeto parece ter surgido de uma interessante idéia inicial que não conseguiu manter o nível. Este é o projeto menos inteligente, menos ambicioso e mais desinteressante da carreira de Niccol. Não que o filme seja terrível, ele não é. Mas é cheio de problemas e demonstra uma falta de cuidado justamente com aspectos que alavancaram a carreira de seu criador. Uma pena. 

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