No cinema todos são culpados até que provem o contrário. Deve ter sido com essa idéia em mente que o diretor Andrew Jarecki (Na captura dos Friedman) assumiu esse projeto e se utilizou de abordagem tão brusca. Entre segredos e mentiras é um projeto que a princípio se assemelha muito com o trabalho anterior do seu diretor, uma análise de uma respeitada família judia envolvida em escândalos. Mas as similaridades param por aí, além da obvia diferença por ser um filme de ficção, aqui Jarecki trabalha em um caso não solucionado e se uma das qualidades do seu famoso documentário era a imparcialidade, aqui o cineasta assume um lado e retrata fatos nunca provados, baseado em informações e motivações que nunca ficam claras.
David Marks (Ryan Gosling) é herdeiro de uma rica e tradicional família judia do ramo imobiliário. Buscando fugir do seu pai controlador, David conhece a linda Katie (Kirsten Dunst) uma menina de família humilde, e logo os dois acabam se casando. Vivendo as custas do pai, David resolve entrar para o ramo da família e começa a prosperar. Os dois vivem uma boa vida até que David começa a mudar e aos poucos Katie vai descobrindo segredos do seu marido e de sua poderosa família.
Um dos problemas deste projeto é a indecisão do seu diretor e roteristas por seguir um caminho. O filme abre com uma cena de um carro andando em um local isolado, na narração acompanhamos David já velho falando sobre a violenta morte de sua mãe. Em seguida o filme volta para os anos 70 e vira um romance. De romance a drama familiar, de drama a suspense (da pior espécie diga-se de passagem). Esses são os gêneros que se intercalam por toda a projeção, deixando a impressão que seus realizadores não sabem muito bem o que estão querendo. Pior é que o filme consegue se sair mal em todos esses gêneros. A química entre o casal de protagonistas é ruim, o desenvolvimento do relacionamento é mostrado de forma abrupta, o desenvolvimento dos próprios personagens é deficiente, criando uma narrativa frágil. Intercalando cenas com o áudio do julgamento, o filme perde o fator surpresa, o que poderia ser uma mudança de direção interessante se melhor abordada. Como drama familiar o filme melhora, justamente pelas atuações de Dunst e do veterano Frank Langella, mas assim que as cartas são postas na mesa o filme vira um suspende descabido que é muito atrapalhado por uma trilha sonora terrível, que parece querer avisar ao espectador que algo vai acontecer. Jarecki erra ao mostrar apenas um ato de violência durante todo o filme, essa falta de estímulo visual associados a calma do excelente ator Ryan Gosling fazem do protagonista uma incógnita, fator este que poderia ser usado a favor do filme, mas acaba criando um personagem desinteressante, afinal nunca sabemos as suas motivações, os próprios traumas do personagem são esclarecidos por terceiros, mas nunca acompanhamos de perto sua explosão, nunca vemos David cruzar o seu limite. A única cena mostrada acontece de forma tão rápida e abrupta que fiquei me perguntando se aquilo realmente havia ocorrido ou se fora uma materialização do desejo de David.
O filme conta uma estória de muitos anos e por isso emprega saltos no tempo que jogam o espectador na nova realidade de David sem situar nada, deixando vazios enormes na trama. O terceiro ato apesar de necessário (afinal aconteceu), soa como um excesso não acrescentando em nada a trama.
Ryan Gosling (Half Nelson,Drive) tem assumido muitos projetos ultimamente, e é natural que alguns deles acabem terminando em deslizes, este aqui é um deles. Gosling atua no piloto automático, ele sempre interpretou papéis de pessoas perturbadas com eficiência, ele já tem uma cara meio estranha, mas aqui ele interpreta um personagem desinteressante, o roteiro também não o ajuda, criando um personagem vazio e distante. Kirsten Dunst ( Brilho eterno de uma mente sem lembrança, Melancolia) é o grande destaque do filme, ela humaniza Katie e faz dela o personagem mais crível da estória, seus dramas e medos são latentes e o filme perde muito com a saída de sua personagem. Frank Langella (Boa noite boa sorte, Frost/Nixon) interpreta o controlador patriarca Sanford Marks. Sempre carrancudo, ele está sempre cobrando do filho e a postura séria do ator ajudam a fortalecer o personagem sem torná-lo uma caricatura. Fechando o elenco outro veterano Philip Baker Hall (Magnólia, Zodíaco) que interpreta o perturbado Malvern, um idoso que se identifica com David e passa a acompanhá-lo durante o terceiro ato. Apesar do pouco tempo de tela, Philip expressa grande insegurança e fica claro que seu personagem faria tudo pelo novo amigo. Outra boa atuação deste ótimo ator.
As cartelas que surgem ao final falam muito sobre a estória e me fizeram olhar com outros olhos todo o ocorrido. Nunca elas se fizeram tão necessárias. Acredito que a idéia do diretor seja exatamente a de fazer o espectador repensar todo o ocorrido, sendo assim esse final me agradou muito. Mas como eu falei no início, fica a certeza da culpa do protagonista, e ao adotar um lado o projeto enfraquece. Talvez deixar em aberto, criar possibilidades em relação aos fatos fosse o melhor caminho para este projeto, o que é curioso, afinal foi a falta de decisões por parte de seus realizadores que o empobreceu tanto.
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