quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Além da estrada ( Brasil - Uruguai - 2010)



          Um road movie romântico rodado no Uruguai, assim pode ser descrito esse bom Além da estrada. Uma produção Brasil-Uruguai, vencedora de alguns festivais, que tem como sua maior qualidade a veracidade de tudo que ocorre na tela. Funcionando quase que como um guia turístico do país (existem locações formidáveis, em um país pequeno e pouco destacado turisticamente), o filme acompanha um estranho e improvável casal formado por Santiago (Esteban Feune de Colombi) um argentino resolvendo assuntos de família no Uruguai, e Juliette (Jill Mulleady) uma belga perdida no país a procura de um antigo namorado. A produção usa de belas locações, de um entrosado casal de protagonistas e de situações que remetem a população e a cultura local, dando um ar documental a esse interessante trabalho. O filme é escrito e dirigido pelo brasileiro Charly Braun, que faz aqui sua estréia em longas metragens e foi vencedor do prêmio de melhor direção do festival do Rio de 2010 por este trabalho.   


          O filme abre com passagens pela velha Montevidéu, e acerta ao sair da cidade que tem ares de Europa antiga e em nada tem haver com o clima do filme. O encontro dos dois no cais soa forçado e o visual de Juliette parece estranho demais, escondendo a beleza de Mulleady. Mas logo dentro do carro a estranheza vai deixando o espectador. O casal de atores tem uma química forte, e apesar do aparente desinteresse de um no outro, eles são envolvidos pelo clima do interior do país e começam uma amizade cativante. A estória corre de acordo com o que o caminho apresenta ao casal, neste sentido o filme parece improvisado, dando um ar de naturalidade interessante a obra. Se utilizando de locações sensacionais, todas rodadas em propriedades privadas (nada que seria achado com facilidade por um turista comum), o filme engrandece o Uruguai, criando no espectador o desejo de conhecer aqueles encantadores lugares. Usando de várias cenas em que o casal e principalmente Santiago, interage com pessoas dos povoados, essas cenas são as pérolas da projeção, criando o tom documental já citado (destaque para a cena com o fazendeiro centenário). Tendo o crescente interesse mútuo do casal como ponto principal, o relacionamento dos dois é construído de forma orgânica, dando credibilidade ao casal. O filme perde um pouco com a separação do casal em determinado ponto, o personagem Santiago não consegue sozinho prender o espectador, o próprio filme perde o foco com a desnecessária participação de Naomi Campbell. Se recuperando em seu terceiro ato, a projeção se encerra com um belíssimo plano, que já figura como um dos mais bonitos e poéticos a que assisti esse ano.  

          O argentino Esteban Feune de Colombi interpreta Santiago com grande naturalidade e desenvolve seu personagem com maestria. Conforme ele se apaixona por Juliette, surgem suas inseguranças, e é notória a transformação do seu personagem. De nacionalidades suíça e uruguaia a artista plástica Jill Mulleady compõe Juliette como uma insegura menina, que usa  de visual estranhos para esconder sua beleza. Ao ganhar a confiança de Santiago, ela passa a expor sua beleza, mesmo que de forma tímida e insegura. Justamente essa insegurança é o charme da personagem, o fato dela chegar sozinha e perdida a um país estranho a procura de um antigo caso, mostra o quão inconseqüente ela é, e a decepção amorosa faz dela cada vez mais insegura. Necessitando de se apaixonar, ela precisa de um homem por perto e o solitário Santiago (ele perdera os pais a pouco tempo) parece ser a escolha certa.   

          Um road movie inimista, que mostra não só a intimidade de um casal, mas de um país e seu povo. Essas são  apenas algumas qualidades deste bom Além da estrada. O estreante cineasta brasileiro Charly Braun é extremamente feliz neste seu primeiro projeto, em uma interessante produção sul-americana. Este tipo de produção deveria ocorrer com mais freqüência, a riqueza de nossas culturas somadas e misturadas é interessante demais para ser não ser explorada. Salve o cinema sul-americano. 

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