Há muito do Anticristo em Melancolia. Da arte promocional, passando pela abertura em slow, a estrutura divida em capítulos e ao intenso estudo de depressivos personagens. O polêmico cineasta dinamarquês Lars Von Trier (Dogville, Dançando no escuro) faz do seu novo projeto, uma espécie de irmão do seu trabalho anterior. Não ficaria surpreso se em um futuro próximo constatássemos serem esses dois projetos parte de algo maior. Tendo sentimentos obscuros da natureza humana como tema, essas duas obras vão fundo na psique de perturbados personagens, que precisam lidar com suas dores, traumas e frustrações,
se no excelente Anticristo, toda a situação era desencadeada pela dor e pela culpa da morte de um filho, aqui a situação surge com a eminência do fim do mundo. Melancolia é um planeta, prestes a se chocar e varrer a terra do mapa. Mas esse é somente o pano de fundo, são as relações dos integrantes de uma família que trazem a verdadeira melancolia do título. O tão aguardado filme catástrofe de Lars Von Trier ,trata-se na verdade de um estudo de personagens.
se no excelente Anticristo, toda a situação era desencadeada pela dor e pela culpa da morte de um filho, aqui a situação surge com a eminência do fim do mundo. Melancolia é um planeta, prestes a se chocar e varrer a terra do mapa. Mas esse é somente o pano de fundo, são as relações dos integrantes de uma família que trazem a verdadeira melancolia do título. O tão aguardado filme catástrofe de Lars Von Trier ,trata-se na verdade de um estudo de personagens.
Dividido em duas partes, precedidas de um pró-logo, Melancolia em sua primeira parte acompanha Justine (Kirsten Dunst), recém casada acompanhamos a luxuosa festa após a cerimônia. A festa ocorre na mansão que sua irmã vive com o marido, festa esta que vira palco para confrontos de sua estranha família, ao mesmo tempo em que Justine se mostra totalmente perdida e esgotada em relação a aquela situação e ao seu futuro. Em sua segunda parte o projeto acompanha Claire (Charlotte Gainsbourg), a devotada irmã de Justine, que parece ser a única da família empenhada em pôr tudo em ordem. Tentando criar uma família sólida, ao mesmo tempo que cuida da irmã depressiva, ela vê seu mundo desmoronar com a descoberta do planeta Melancolia.
O filme abre com uma seqüência em Slow que repete a abertura do Anticristo. Mais extensa e menos poética, a abertura acaba sendo menos impactante e perde um pouco a força. Ao contrário do projeto anterior, a seqüência mostra algumas cenas que vão se repetir durante os outros dois atos, algumas cenas são apenas simbólicas, e tudo culmina com o encontro entre os dois planetas. Não há esperança no cinema do dinamarquês.
A primeira parte abre com uma Justine linda e radiante, junto ao marido, os dois levam com extremo bom humor e alegria até mesmo os percalços que os fazem se atrasar para a festa. Em contra partida, a sistemática Claire está irritada com a irmã, mesmo que não a repreenda. Já dentro da festa começam os conflitos declarados entre os integrantes da família das duas. A mãe desgostosa com a vida e o pai, um bêbado mulherengo, trocam farpas públicas e com a secessão de Claire e seu marido, tudo aquilo parece ser bem normal. Com um marido extremamente sem sal, um patrão controlador e um cunhado arrogante, logo começa a ser cobrado de Justine que ela seja feliz, como se isso fosse sua obrigação e Justine começa a sumir diante dos olhos do espectador. Esse é sem dúvida o melhor trabalho de Kirsten Dunst (Homem aranha, Maria Antonieta), além de nunca tê-la visto tão bela, ela consegue contrapor uma alegria radiante, com uma confusão e esgotamento profundos, seguido de uma raiva descontrolada. Justine é um enigma para o espectador, ela se transforma diante de nossos olhos, e muito desse sucesso se deve a excelente atuação de Dunst. A seqüência do casamento é filmada em sua maior parte com uma câmera na mão, que dá um tom quase documental a festa, dando um ar de urgência que contrapõe com os acontecimentos. Von Trier também se utiliza de uma reprodução de foco automático, pois a câmera sempre se aproxima bastante do rosto dos personagens e ao menor movimento o rosto dos mesmos saem de foco, criando um efeito embriagante que dá uma atmosfera de sonho a seqüência. Essa urgência e a aproximação da câmera dos personagens passam um tom sufocante, e é interessante constatar que Justine só se liberta ao ar livre, seja urinando no campo de golfe ou transando com um desconhecido (até mesmo a cena em que ela se demite ocorre ao ar livre).
A segunda parte é focada em Claire, que é interpretada pela Charlotte Gainsbourg (Anticristo, A árvore). A mãe de família, que tenta manter a ordem de tudo, dentro da bela e exagerada mansão (reflexo da personalidade do marido de Claire, interpretado por Kiefer Sutherland), e ainda precisa cuidar da irmã depressiva. Com a descoberta do planeta Melancolia, Claire perde o controle com a eminência do fim, a falta de controle sobre a nova situação a deixa desesperada e perdida. Essa segunda parte tem um ritmo mais cadenciado. Os enquadramentos estão sempre com espaços vazios, grandes ambientes para poucas pessoas, o que ressalta a insignificância do ser, perante a imensidão do mundo. As cenas do pró-logo quase em sua totalidade ocorrem nessa parte, há uma maior interação dos personagens com a natureza e os diálogos são mais escassos.
Apesar de menos audacioso e impactante, Melancolia faz um par muito interessante com o Anticristo (o melhor trabalho do dinamarquês na minha opinião). São dois filmes que vão fundo na miséria humana, e Lars Von trier, um cineasta pessimista por natureza, que passou por um processo depressivo (exorcizado em O anticristo), parece expandir aqui o sentimento para o mundo exterior, e não é a toa que Melancolia surge inesperadamente e varre o mundo. Von Trier tem propriedade para tratar do assunto e o faz co m maestria.
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