Nem tudo o que reluz é ouro. Ver Selton Mello vestido de palhaço não faz deste filme uma comédia (apesar de haver humor na trajetória), assim como ter ''feliz natal'' no título não significa que você verá felicidade na tela. Selton parece gostar de brincar com a expectativa do público, e o faz com maestria. O palhaço é um road movie com toques de um humor sarcástico, sobre um circo mambembe chamado esperança em plena década de 70. Essas características já seriam suficientes para categorizá-lo como único, unido ao excelente trabalho do seu cineasta e protagonista e de todo o excelente elenco desta obra que é um pequeno tesouro dentro da filmografia nacional recente.
Benjamim (Selton Mello) é um palhaço e administrador do circo esperança. Trabalhando junto ao seu pai Valdemar (Paulo José) dentro e fora dos palcos, Benjamim está esgotado devido ao trabalho de manter o modesto circo em atividade. Excursionando com o circo, ele vive uma crise de indentidade sem achar o seu lugar no mundo e dentro do próprio circo, no caso a sua família.
É fácil encontrar algumas das referencias utilizadas nesta obra, elas gritam na tela, e de tão variadas, chegam a ser curiosas. O longa é repleto de rimas visuais, o que está pintado na tela diz mais sobre os personagens do que suas palavras, e isso sempre é sinal de bom roteiro. Abrindo e fechando o filme com duas seqüências que se completam e dão ao filme um aspecto cíclico, com um desfecho não só plasticamente belo, como também perfeito para a estória. O roteiro escrito por Mello junto a Marcelo Vindicatto, mescla com qualidade um humor inteligente e sutil, com uma inocência derivada da própria situação vivida pelos personagens principais. Aliás, a sutileza talvez seja a maior qualidade de seu roteiro, que cria personagens fascinantes com pouco (muito disso também se deve as brilhantes atuações de grande parte do elenco). A jornada vivida pelos integrantes do circo é interessante e emocionante, apesar das repetições (que poderiam dar um ar monótono ou episódico ao projeto), o filme desenvolve personagens e relacionamentos de forma orgânica, dando força a estória. Todos os personagens ganham pequenas sub-tramas, interessantes o suficiente para fazer com que nos importemos com eles, mas a estória principal, a de Benjamim é contada de forma tocante, e o carinho dos integrantes do circo por ele, passa a ser compartilhada pelo espectador.
O elenco desta obra foi selecionado com esmero por seu diretor, todos estão muito bem, criando personagens variados e interessantes dentro de uma narrativa que engloba muitos personagens e situações. O palhaço Benjamin de Selton parece uma mistura de Chaplin com o Didi, com aspecto cansado até mesmo em suas cenas no picadeiro, Mello é eficiente em transparecer o sentimento de inquietude e insatisfação do protagonista, com semblantes triste e ombros caídos, só faltou a ele a maquiagem triste. Recheado de participações especiais, que em cenas rápidas acrescentam ao folclore de personagens do filme. Destaco o meu conterrâneo Tonico Pereira (Quase dois irmãos, O bem amado), sempre excelente, ele interpreta dois irmãos mecânicos que não se falam a anos (apesar de serem vizinhos) e a impagável atuação do cantor Moacyr Franco, que comanda a cena mais engraçada da projeção como um delegado apaixonado pelo gato de estimação. Mas o destaque absoluto fica para um dos maiores atores do nosso cinema, Paulo José (Macunaíma, A festa da menina morta). Ele que sofre com o mal de Parkinson a quase duas décadas, rouba todas as cenas em que aparece, dando vivacidade a um personagem que é a personificação do nome do circo. (Além de atuar bem, ele simplesmente esconde as características da doença enquanto atua, é impressionante e comovente).
Selton Mello (impossível falar do filme sem falar muito dele) mostra uma grande evolução como cineasta, e com esses dois trabalhos começa a mostrar que seu caminho atrás das câmeras é mais promissor que a frente dela. Com grande influência de Wes Anderson e Chaplin, Selton cria um filme de visual forte, se utilizando de rimas visuais, mas com significados e intenções completamente diferentes. Utilizando planos abertos, englobando vários personagens, ele mostra as situações de forma inusitada, Destaco a cena da delegacia (impagável), a forte cena do seu pai Valdemar com sua namorada no carro, cena em que Selton aproxima a câmera dos atores, incorporando o espectador a cena e claro os dois excelentes planos seqüências, que cheios de significado, se completam com perfeição.
Com mais este excelente trabalho Selton vai se tornando um expoente dentro do nosso cinema atual. Com duas obras completamente diferentes (quase antagônicas), é impossível saber qual será o próximo passo dele como diretor, e é justamente essa versatilidade apresentada até aqui que faz da carreira dele tão promissora e interessante.
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