sábado, 15 de outubro de 2011

Contra o tempo (Source code - E.U.A. 2011)

          Ficções cientificas minimalistas, esse é o estilo dos dois  trabalhos do diretor britânico Duncan Jones (Lunar). Usando a ficção como ferramenta para criar estórias que tem no protagonista  sua força motora. Aqui o protagonista interpretado pelo competente Jake Gyllenhaal (Donnie Darko, Soldado anônimo) também está preso a uma situação, mas diferente do astronauta de Lunar, ele interage com outras pessoas, mesmo que através de telas, ou de pessoas que na verdade já estão mortas. Contando com um roteiro interessante mas cheio de buracos, Contra o tempo surge como uma ficção cientifica interessante, que se contasse com um roteiro melhor pensado, ou no mínimo houvesse seus erros mais grosseiros reparados, seria um belo exemplar de ficção cientifica, ao invés disso ele apenas passa com seus erros a sensação de sermos seres inteligentes, pelo menos mais inteligentes que seu roteirista.



          O soldado Colter Stevens (Jake Gyllenhaal) acorda em um trem sem entender como foi parar ali, coisas estranhas acontecem e uma explosão mata a todos no trem. Ele acorda após a explosão e descobre estar em uma missão, onde ele precisa voltar para dentro do trem e reviver os últimos oito minutos da vida de um dos passageiros, usando este tempo para descobrir quem explodiu o trem, visando evitar que novos ataques aconteçam.

          O roteiro acerta ao abrir o filme colocando o espectador em situação semelhante a do personagem, pois assim como ele nada sabemos. A cada nova informação surgem novas perguntas e o filme vai ficando cada vez mais interessante, é muito bem amarrada a primeira metade deste projeto. O personagem é bem construído, os diálogos expositivos em alguns momentos soam naturais devido a situação em que se encontra Stevens e as respostas que o filme vai nos dando são satisfatórias, aumentando a tensão do expectador. O diferencial deste roteiro é que depois de um determinado ponto o atentado terrorista fica em segundo plano, a real situação da missão e da condição de Stevens se tornam o grande mistério do filme. E é uma pena que um roteiro que consegue instigar tanto, tenha um desfecho tão fraco. A metade final do projeto tenta explicar o processo pelo qual Stevens volta ao trem, ao mesmo tempo que tenta deixar toda a situação meio que envolta em mistério, como se o filme que quisesse entregar o ouro, e aí começam os problemas. A teoria que explica como Stevens consegue voltar a momentos anteriores é meio furada. Como é que Stevens volta para dentro da mente de um homem e lá consegue obter informações as quais o homem não tem ? O filme explica bem que não se trata de uma viagem no tempo, portanto o ocorrido não pode ser mudado, e Stevens não conseguirá alterar os fatos, aí reside o maior erro na estória do filme. Outro erro grosseiro e não explicado é, como raios ele consegue o número do celular da sua superior ? Esse tipo de erro acaba estragando um filme que prometia muito (e vinha cumprindo com o prometido até então). Mas apesar dessas falhas, o roteiro também tem qualidades. As relações dos personagens são bem construídas, o que humaniza e intensifica toda a situação, e o final que apresenta uma saída digamos filosófica que me agradou bastante.

          O diretor Duncan Jones mostra com seu novo trabalho que tem uma carreira interessante a ser observada de perto, aqui sem os limites orçamentários de seu longa original, ele consegue construir uma narrativa empolgante, que mesmo com as falhas do roteiro e as seguidas repetições originárias da própria trama, nunca se torna chata. Ele é muito eficiente ao apresentar elementos que serão importantes ao longa da estória, sem soar forçado ou gratuito e esses detalhes engrandecem a trama. O filme todo se passa em três ambientes, havendo repetições de cena, mas o trabalho de Jones e do veterano montador Paul Hirsch (Guerra nas estrelas – Uma nova esperança, Missão impossível)dá dinamismo ao filme, criando um ritmo tenso, que associados ao trabalho do bom elenco mantém o filme nos trilhos.

          O competente Jake Gyllenhaal interpreta o soldado Colter Stevens com um vigor e uma humanidade dignos de um grande herói, repare como depois de variadas repetições Gyllenhaal vai surgindo esgotado, suas sucessivas mortes o afetam de mais, e sua redenção reside em tentar salvar pessoas que já morreram e que por incrível que pareça estão mais próximas dele. A química dele com a bela Michelle Monaghan (Supremacia Bourne, Missão impossível III) é forte o suficiente para tornar crível o relacionamento de Stevens com Christina, e é impressionante constatar como alguns filmes passam duas horas tentado criar um relacionamento (muitos não conseguem) e aqui uma relação que funciona basicamente como uma motivação para o protagonista acabe se tornando crível e forte. Muito disso também se deve a boa atuação de Monaghan, que surge linda, mas nem por isso frágil. A também bela Vera Farmiga (Os infiltrados, Amor sem escalas) interpreta a superiora de Stevens e é praticamente o único elo dele com a verdade e o mundo real. Atuando praticamente o filme inteiro em frente de uma tela, Farmiga é eficiente em transmitir compaixão por Stevens e o seu ato final nunca soa forçado, graças ao trabalho da competente atriz.

          Contra o tempo consegue em 90 minutos criar grandes expectativas e apesar de frustrar algumas delas, termina com um saldo positivo. O filme funciona como degrau para seu diretor alcançar vôos mais altos e torçamos para que ele permaneça nesse território das ficções cientificas, gênero que anda tão carente de boas produções e vê em Duncan Jones um possível expoente de uma nova geração de cineastas. Talentoso e criativo ele é, torçamos para que o dinheiro não o deixe preguiçoso.    

Nenhum comentário:

Postar um comentário