Claudio Torres é um cineasta e roteirista que desde o seu primeiro longa traz um frescor novo para o cinema nacional, fugindo dos estereótipos do nosso cinema atual, seus projetos misturam estórias diferentes, sempre associadas a um humor característico, diferente do que é produzido por aqui. Se utilizando sempre de bom elenco e de efeitos visuais competentes que existem com o único intuito de engrandecer a narrativa. Foi assim com o bom Redentor, com o mediano A mulher invisível e agora com O homem do futuro, Claudio conseguiu reunir as qualidades dos seus longas anteriores e concebeu este que é até aqui o seu melhor trabalho.
Conseguindo juntar com eficiência ficção científica e romance, Claudio cria uma narrativa que consegue agradar a diferentes tipos de público, conseguindo fazer do seu cinema pop e de gênero ao mesmo tempo.
Conseguindo juntar com eficiência ficção científica e romance, Claudio cria uma narrativa que consegue agradar a diferentes tipos de público, conseguindo fazer do seu cinema pop e de gênero ao mesmo tempo.
João é um físico brilhante que busca criar uma nova fonte de energia, apesar de seu brilhantismo, se trata de um homem solitário e atormentado por ter sido humilhado e abandonado em uma festa pela sua grande paixão há mais de 20 anos, humilhação essa que o marcou e faz dele um insatisfeito inveterado. Após entrar em sua máquina, ele descobre ter criado uma máquina do tempo que o leva exatamente ao dia da festa em que tudo aconteceu, dando a ele a possibilidade de alterar seu passado e consequentemente o seu futuro.
A boa surpresa deste projeto é o seu roteiro, escrito pelo próprio Claudio Torres, a trama é bem amarrada, com poucos furos (estes surgem aos montes quando se trata de viagens temporais), tem interessantes viradas, alguns diálogos ruins, mas como um todo um ótimo trabalho. Trazendo referências sutis a outros clássicos que tem a viagem no tempo como plot principal, a obra alia a complexidade do tema (e apesar de ser tudo bem amarrado, tenho certeza que os menos atentos ficaram confusos em algum ponto), com um tom cômico, criando o tom do sucesso desta empreitada. Claudio também é muito feliz na composição da sua segura direção, ele repete os planos sempre que Zero chega a uma nova realidade, criando uma lógica narrativa, mas sem soar chato e repetitivo. As cenas repetidas, vistas sobre um novo ponto de vista, também são muito boas, e aliadas a montagem precisa do excelente montador Sérgio Mekler (Casa de areia, Mutum), engrandecem o filme. Destaque também na bem sucedida criação das diferente realidades, que são visualmente diversificadas pelo trabalho do fotógrafo Ricardo Della Rosa (O passado, À deriva) e da diretora de arte Yurika Yamasaki (Lavoura Arcaica, Gaijin - Ama-me como sou), que utilizam diferentes paletas de cores, dando um tom diferente a cada nova realidade. Como por exemplo na realidade em que Zero se tornou um cientista famoso e abandonou a todos, reparem como tudo é azulado, frio, limpo e distante. Em contra partida, durante todas as seqüências da festa, tudo é colorido, vivo, ressaltando a euforia do protagonista. Outro elemento já presente na filmografia de Claudio é o uso de efeitos especiais, e aqui os efeitos são excelentes, bem construídos, eles nunca soam falsos, e são utilizados apenas em pró da narrativa, mostrando maturidade por parte de seu realizador.
O elenco do filme também é muito bem escalado (outra característica dos filmes de Claudio Torres), e a química ente eles é peça fundamental para o sucesso do filme. Como o cientista Zero e todas as suas versões, Wagner Moura (Tropa de elite, Cidade baixa) está excelente, ele consegue criar três diferentes personagens, que apenas pelos trejeitos já identificamos como diferentes. Alternando entre a ingenuidade do jovem João, e a serenidade do último Zero, ele transmite segurança na composição dos personagens, apesar de aqui usar seu tique no olhar com um pouco de exagero. Zero já entra para a lista de grandes personagens deste excelente ator, que a cada novo filme nos impressiona e vai engrandecendo a sua já brilhante carreira. A musa Helena (clara referência a Tróia) é interpretada pela bela Alinne Moraes (Fica comigo esta noite, Os normais 2) que cria com jovialidade e beleza uma encantadora personagem, ficando fácil para o espectador entender o porque da obsessão de Zero por ela. A química entre os dois é excelente e um dos pontos fortes da projeção. Interpretando Otávio, o melhor amigo de Zero, Fernando Ceylão cria um personagem que vive a sombra do amigo, mas nunca deixa de apoiá-lo, carismático, ele consegue até mesmo em sua versão revoltada ganhar a preocupação do espectador. Como amiga e patrocinadora de Zero, Maria Luiza Mendonça (Jogo subterrâneo, A suprema felicidade) se sai bem, mas é sabotada pelo roteiro ao aparecer em uma versão jovem que não convence em virtude da sua idade real.
O homem do futuro é uma boa surpresa, que vai agradar ao grande público, torço muito pelo sucesso deste filme. O cinema nacional precisa dessa diversidade e Claudio Torres traz isso em sua pequena, porém interessante filmografia. Não devemos jamais esquecer e deixar de enaltecer as nossas raízes, mas nossos artistas precisam abrir os olhos para o mundo e criar estórias mais universais. Aos poucos isso vem ocorrendo com nosso cinema, não é a toa que o mundo anda de olho nas nossas produções.
Nenhum comentário:
Postar um comentário