Do estreante Gustavo Hernandéz, essa produção uruguaia independente foi toda feita com 6 mil dolares. Normalmente eu aplaudiria esse tipo de produção que quebra padrões hollywoodianos e se adapta para a sua própria realidade. Mas dessa vez, sou obrigado a ficar calado, já que o produto final não ajuda e parece que caminha contra si próprio.
O filme é gravado em um único plano sequência, do início ao fim. Uma decisão no mínimo arriscada. Um plano sequência exige muito ensaio, precisão por parte do cinegrafista e clareza e exatidão por parte do diretor. Nada disso acontece. O filme foi feito nas coxas, de qualquer jeito. como eu disse, nesse caso o orçamento de 6 mil fala contra a produção.
A história se passa em uma pequena vila do Uruguai no início dos anos 40 e é baseado em uma história real. Bem baseado mesmo, já que a notícia pode ter sido real, mas saber o que aconteceu dentro da casa requer muita imaginação. A premissa é baseada supostamente em uma notícia real, sobre acontecimentos bizarros em uma vila local. Segue a linha Bruxa de Blair, só que aqui, ao invés de seguir o estilo "filmagens encontradas", o diretor opta por um longo plano sequência que não teve valor artístico nenhum. Fica claro que foi uma opção baseada em estilo, se é que isso existe no cinema. Vai ver ele achou legal se o filme fosse feito em um imenso plano sequência. O que na realidade não é, já que os mais atentos serão capazes de identificar o "corte" que ocorre no segundo terço do filme.
A câmera é insegura e trêmula. Pelo estilo e movimento do câmera, posso garantir que estavam filmando com uma DSLR. provavelmente uma Canon 5D. O problema é que por ser muito pequena e muito leve, não oferece muita estabilidade para ser usada na mão. É isso que acontece. O plano sequência de câmera na mão é insuportavelmente confuso e o diretor, por sua vez, não consegue se decidir se quer uma câmera subjetiva ou não. já que muitas vezes temos a impressão de estarmos vendo o filme pelos olhos da protagonista, só pra em seguida sermos jogados de volta pra fora quando descobrimos que não estamos. Tudo é muito confuso e a inexperiência do diretor, somada com o nervosismo de estrear e a vontade de aparecer como um cara cult e alternativo fez com que Gustavo Hernandéz tentasse fazer o que não sabe. A proposta é muito boa, apostando na simplicidade, mas a execução é pobre e mal feita.
Ainda por cima, o filme quase não tem diálogos. É muito difiícil, por exemplo descobrir quem são e qual a relação que os personagens têm entre si. Só na metade do filme, descobrimos que o "casal"que acreditávamos ver são na verdade pai e filha. E assim, como uma piada ruim que precisa ser explicada o filme se arrasta por quase duas horas em uma situação tão absurda que faz com que você esqueça que aquilo é baseado em uma história real e comece a encarar como uma trama muito forçada de terror trash "C".
A garota Laura, vivida pela também estreante Florencia Colucci que está em cena 80% do filme tenta, mas a câmera não valoriza sua interpretação que é completamente dissolvida quando ficamos olhando pra sua cara por 20 minutos sem parar. E como o filme é um plano sequência, o diretor não pode parar e voltar cada vez que o ator errar. Ele tem que passar por cima. E sem a montagem para disfarçar essas pequenas falhas, o filme acaba passando por cima de muita coisa.
Pra completar, durante o tempo todo temos uma trilha sonora péssima que não tem função nenhuma e muitas vezes te distrai da situação. O que era para ser um momento tenso, passa a ser um clichê previsível quando vc é capaz de ouvir a música subindo e antecipar o "susto". Aliás os poucos sustos que realmente existem são igualmente gratuitos.
O filme não tem uma mensagem. não te apresenta personagens e nem situações. Ele não te deixa entrar por completo na tensão e fica constantemente te lembrando que é um filme. E um filme ruim ainda por cima. Cheio de planos elaborados que envolvem reflexos, espelhos e profundidade de campo mas que não servem pra nada. O filme foi uma imensa dança que deve ter sido exaustivamente ensaiada, mas ele acabou deixando de lado todos os elementos que de fato fazem um filme.
O filme está em cartaz no UCI Recife e a menos que você queira ter muita raiva, espere chegar em DVD. Ou talvez nem isso. deixe o filme passar. assista Atividade Paranormal que é um filme muito mais objetivo. Aliás, o poster uruguaio traz a frase: "Se você assistiu Atividade Paranormal..." tentando desesperadamente atrair público as custas de outro filme. O resto da campanha consiste em ressaltar que o filme foi feito em uma só tomada. E isso não é um mérito, já que ele foi pobremente executado.
Uma bosta, tanto na frente quanto atrás das câmeras. Uma pena ver boas idéias sendo desperdiçadas dessa maneira. se quiser assistir, faça por sua própria conta e risco. Eu não tenho nada a ver com isso.

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