sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Amor a toda prova ( Crazy Stupid Love - E.U.A. 2011)


          Eu odeio todo e qualquer filme que resolve os seus conflitos com discursos emotivos, absurdos e desnecessários. Essa falta de sutileza que me ocorre é do mesmo tipo que você vai encontrar durante toda a projeção de Amor a toda prova. Esse é mais um filme da safra de comédias dramáticas do cotidiano americano que saem com freqüência espantosa. Essas comédias contém alguns elementos que fazem delas quase um sub-gênero. A começar pelo elenco, geralmente recheado de atores gabaritados e este exemplar é um dos mais expressivos neste sentido. O que me intriga ainda mais, como um roteiro tão artificial e recheado de cenas constrangedoras conseguiu atrair um elenco tão bom ? Ver o nome de Steve Carell como produtor me respondeu a pergunta, mas logo pensei, como raios o Steve Carell embarcou nessa ?



          Cal (Steve Carell) é um pai de família que vê seu mundo ruir quando sua esposa Emily (Julianne Moore), pede o divórcio e diz ter transando com outro homem. Atordoado, ele sai de casa e passa a freqüentar bares, onde bebe e se martiriza por toda a situação. Em um desses bares, ele conhece Jacob (Ryan Gosling), um garanhão que sai de bar em bar conquistando mulheres como estilo de vida. Sensibilizado com a situação de Cal, Jacob transforma o novo amigo em uma versão mais velha de si mesmo. Apesar de curtir a nova fase, Cal ainda sente falta da antiga vida e de sua família, e vai tentar reconquistar sua esposa. 

           O primeiro problema deste filme é que ele não consegue encontrar o tom certo entre a comédia e o drama. Hora ele é aborrecido demais, hora ele é engraçadinho demais. Ao abordar diferentes tramas, todas interligadas, o filme aposta na força das coincidências do amor para unir todos os personagens, e algumas situações além de piegas, são muito forçadas (há uma reviravolta ao final do segundo ato que chega a ser revoltante). As transformações dos personagens ao longo da projeção são artificiais, suas motivações frágeis e o longa é repleto de diálogos expositivos. Os diretores Glenn Ficarra e John Requa ( Dupla responsável por O golpista do ano),  tentam se expressar por meio de imagens( quero muito acreditar que eles tentam fugir dos terríveis diálogos), a primeira seqüência é cheia delas, mas como tudo no filme, essas cenas se tornam cansativas e falta aos dois sutileza e classe como contadores de estórias (eles conseguiram melhor resultado em O golpista do ano, justamente pela natureza do longa permitir a eles falta de sutilezas, o que não acontece no filme aqui criticado). Mesmo em meio a tantos equívocos, algumas cenas se destacam, como por exemplo a cena em que Cal conversa por celular com a ex-esposa, enquanto ele a observa do jardim, uma cena bonita, sutil, que mostra que com um elenco deste e mais capricho no roteiro, esta obra poderia ter um resultado bem diferente.  

          O elenco liderado pelo também produtor Steve Carrel (Agente 86, Eu,meu irmão e nossa namorada) consegue se salvar, mesmo em meio a tantos problemas. Carrel interpreta um tipo de personagem que é a fuga dele dos personagens  mais engraçados. O homem de meia idade derrotado, amargurado que busca no amor um reinicio (aqui é um pouco diferente, mas a idéia é basicamente a mesma). Sabendo dosar o tom sério até mesmo nas cenas mais cômicas, ele traz ao personagem Cal um seriedade que sustenta o filme (durante toda a projeção ele prece carregar o mundo nas costas) e aos poucos Carrel vai se tornando mais um ator de comédia que mostra talento para filmes dramáticos. Julianne Moore (Boogie nights, Filhos da esperança) está excelente como geralmente ocorre. Ela consegue dar vivacidade a personagem mais ajudada pelo roteiro, e mesmo tendo traído o protagonista, ela se mostra frágil e direita, cativando  o espectador e dando credibilidade a obsessão de Cal por ela. O subestimado Ryan Gosling (O mundo de Leland, Half Nelson) que geralmente interpreta tipos estranhos, tem aqui um de seus personagens mais ''normais'', e  apesar de não comprometer o projeto, ele atua no piloto automático, nesse que para mim é o seu pior trabalho. A linda Emma Stone (Superbad, Zumbilândia) dá um doçura incontestável a sua personagem, e torna plausível (ponto raro deste  filme) um personagem insensível como Jacob acabar se apaixonando por ela. Kevin Bacon (Sobre meninos e lobos, O lenhador) interpreta o amante de Emily, apesar do pequeno papel, ele demonstra se divertir bastante com o personagem (o nome dele vira uma piada dentro da estória) e mostra que está em uma boa fase de sua carreira (outro ator subestimado). Fechando o elenco Marisa Tomei (Antes que o diabo saiba que você está morto, O lutador) faz uma ponta como a primeira amante de Cal, suas curtas cenas são engraçadas e sua caracterização exagerada é a única realmente convincente (talvez pelo pouco tempo de tela). 

          Amor a toda prova é um filme que poderia ter dado muito certo, e essa promessa não cumprida pesa muito contra o filme. Se você não se importa muito  com sutilezas, pode assistir sem medo. Agora, para quem procura um filme que te faça rir e se emocionar, talvez seja melhor você re-visitar Pequena Miss Sunshine.

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