quinta-feira, 28 de julho de 2011

Caprica (Série)

A série chegou a mim através de um comentário de um amigo. Comentário que aguçou a minha curiosidade, fui apresentado a Cáprica, como dois perfeitos estranhos. Meu jeito preferido de conhecer novos materiais.

A princípio, o visual futurista me impressionou. Os efeitos visuais são toscos, resultado de baixo orçamento e falta de cuidado dos produtores. Caprica é um Spin-Off de uma outra série que é fenômeno entre o público nerd, Battlestar Galactica. Eu também nunca tinha assistido a Battlestar, por isso me permiti escrever esse artigo sem sofrer influências do material original.


A ambientação me agradou bastante, O conceito dos 12 mundos é muito bom. Uma colônia formada por 12 planetas, cada um representando uma das 12 constelações do nosso céu. Cáprica, no caso representando Capricórnio. Cada mundo tem sua cultura, que reflete em seus personagens. O visual noir futurista também é boa, por isso é triste concluir que, talvez grande parte dos méritos de Caprica são herdados de Battlestar Galactica, transformando Caprica em um puro produto de estúdio.

Analisando friamente e fazendo uma pesquisa muito superficial, já pude encontrar razões para o fracasso da série. Uma série de decisões burocráticas que nada tinham a ver com arte ou audiovisual. Pura papelada de gente que não entende e não gosta de cinema. Desde a criação conceitual até a forma de execução. Tudo calculado como tudo mais feito em Hollywood, mas não de um jeito bom.

A ideia original era complementar a audiência de Galactica, que era predominantemente masculina. O público feminino não gosta tanto de batalhas espaciais, robôs alienígenas e tiros de laser cortando a tela. Demoraram coisa de 40 anos pra perceber que o gênero não tem tanto apelo com as mulheres. Com isso em mente eles decidiram criar uma nova série. UmSpin-Off que serviria como prequel para Galactica. Ela se passaria em solo, teriam traços de drama familiar e romance, aparentemente o que eles achavam que mulheres gostam de assistir. Pra completar, a protagonista da série, uma garota de 22 anos com ares de ninfeta. Primeiro que as mulheres que se identificariam com aquela personagem provavelmente não se parecem em nada com a ninfeta gatinha da série, e os nerds solitários que já gostavam de Galactica, continuariam fiéis a nova série que dava a eles algo em que pensar a noite.

A história: Adolescente rica, gênia, revoltada, incompreendida com tendências terroristas cria um avatar seu em um mundo virtual parecido com o Second Life e armazena nele todos os dados que existiam sobre ela. Entradas de blogs, boletins de escola, exames médicos, perfil psicológico, enfim, tudo o que existia na nuvem sobre ela. O Avatar, carregado com suas memórias e dados, é praticamente um clone virtual que só existe dentro do jogo. A garota morre em um atentado terrorista e deixa pra trás sua cópia digital. O pai da garota é um renomado cientista milionário que está desenvolvendo para o governo uma espécie de soldado cibernético. Tudo o que os produtores precisavam para fazer com que o pai parta em uma cruzada para tentar juntar o avatar digital da filha em um corpo cibernético.

A ideia que é inicialmente muito boa, é extremamente mal explorada e mal executada. É visível a falta de cuidado dos roteiristas, dos diretores e principalmente, dos produtores que deixam a série com esse rótulo de enlatado.

O que poderia ser uma série excelente, misturando elementos noir com tecnologia cyberpunk, se transforma em uma fórmula mal feita. O plot principal é arrastado por toda a primeira e única temporada e não têm a menor urgência, já que os roteiristas não se dão o trabalho de explicar nada, contando com a expertise de quem já domina o universo de Galactica.

A estética agrada, mas não o suficiente para esconder todos os problemas e limitações da produção, como por exemplo a falta de orçamento para arte e efeitos visuais. A estética noir, buscando uma realidade futurista dos anos 50 até funcionaria se não fosse tão óbvia a preocupação em economizar recursos. Os efeitos visuais meio toscos são o de menos diante das repetições de linguagem que os diretores insistem em usar de novo e de novo.

A primeira temporada tem 4 diretores: Michael Nankin, Jonas Pate, John Dahl e Wayne Rose. Todos vêm de longas carreiras dirigindo seriados e filmes para a TV. Aqui eles são apenas mais do mesmo. É impossível distinguir os episódios que cada um dirige e perceber qualquer traço de visão artística, já que eles são simples executores das diretrizes dos estúdios para quem trabalham. Em geral, diretores de seriados são bastante inexpressivos, já que não existe liberdade artística.

O texto é feito por um total de 10 roteiristas igualmente inexpressivos. Se a ideia aqui é boa, o que vai para o papel é mal traduzido, e o que vai para a tela também. O seriado é um eco distante do que poderia realmente ser. Ronald D. Moore, criador, produtor executivo, roteirista e diretor de um dos episódios é um roteirista veterano de Star Trek e Galactica. Ele assina o o roteiro de Star Trek Primeiro Contato com Brannon Braga e quase tudo que diz respeito a Galactica. Ele é o idealizador e responsável por todas as falhas e méritos de Caprica. Mais falhas do que méritos, diga-se de passagem. Aqui o texto do seriado é tão caprichado como o de uma novela da Globo. Personagens mudam e se moldam para representar determinados papéis em determinadas cenas, deixando o espectador perdido, com uma sensação de que ele não sabe absolutamente nada sobre aqueles personagens, ficando difícil se importar com o que acontece ou deixa de acontecer com eles. Algumas situações são forçadas e arrastadas por vários episódios como na falecida novela dos Mutantes da Record.

Apesar de ser um seriado ruim e tecnicamente medíocre, Eu gostei da ideia inicial de Cáprica, e mesmo não concordando com o que é feito no texto e na tela, fico com vontade de assistir Galactica e me aprofundar mais no universo, nem que seja só para confirmar minhas constatações. Aprender como não fazer é igualmente importante.

Caprica foi criada por Ronald D. Moore e produzida por Ronald D. Moore e Clara George. Foi ao ar no canal SyFy em 2009

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