terça-feira, 20 de setembro de 2011

A árvore da vida (The Tree of life - E.U.A. 2011)


    O cineasta Terrence Malick (Terra de ninguém, Além da linha vermelha) tem uma curta, porém significativa filmografia (apesar do longo tempo de carreira). Seus projetos tem como característica uma experimentação do mundo singular, dentro de situações bem especificas. Mas nunca antes ele havia realizado um projeto tão filosófico, tão religioso, tão voltado para essa parte abstrata do mundo e da natureza humana. Abrangendo diferentes tempos do planeta, e trabalhando-os como se todos fossem o presente, acompanhamos desde a era jurássica, até o dia-a-dia de uma tradicional família americana. Uma visão do mundo e da  espiritualidade, através de um complexo estudo da natureza humana. 



          Escrito pelo próprio cineasta, o filme não tem uma trama  ou cronologia definidas, são cenas que buscam de diferentes maneiras afetar o espectador, um cinema sensorial e contemplativo que faz desta obra uma experiência diferente. Contando com cenas e imagens de rara beleza, Mallick que sempre me chamou atenção por seus belos planos e composições de quadros, aqui, pela própria narrativa, se permite ir além, criando planos inspirados, belíssimos e pouco convencionais. O projeto semi biográfico (Mallick viveu no interior do Texas), narra     as experiências e sensações de uma família, tendo como protagonista o filho mais velho Jack (em sua versão mais nova interpretado pelo promissor Hunter McCraken), que tem na figura do rigoroso pai (Brad Pitt) a autoridade que controla seu mundo. 

          Atuando em três diferentes tempos, Mallick trabalha os três tempos como se todos eles fossem o tempo presente, criando uma interessantíssima interação entre eles. Interagindo desde a era jurássica e o fim dos dinossauros, passando pela infância de Jack no interior do Texas e chegando a meia idade do mesmo (onde ele é interceptado por Sean Penn). O longa começa ao retratar a perda de um dos filhos do casal, já na meia idade de Jack, e todo o primeiro ato do filme é voltado para a parte da fé, principalmente da mãe (Jessica Chastain), fé essa que fica abalada por sua perda. Ao presenciarmos a era jurássica e rapidamente pularmos para o Texas, o espectador assiste a tudo como um ser onipresente, presenciando tudo ao mesmo tempo. E os esforços do cineasta em provar a existência de Deus  através do uso de imagens e sensações são tocantes. Em seu segundo ato, o filme se prende a família texana, e ao adotar Jack como protagonista, a figura da autoridade muda, sendo assumida pelo Mr. O'Brien (nem primeiro nome ele tem) que exerce extremo controle sobre a família, criando um contra ponto com o Deus do primeiro ato. Ao trazer a figura autoritária para o nosso plano, para próximo da nossa realidade, conseguimos  acompanhar o quão falho e cruel pode ser um PAI.  E ao retratar o Mr. O 'Brien como um músico (artista) frustrado, que cria sua prole com extremo rigor, ele cria uma excelente ironia com a figura do todo poderoso. Em suma Deus existe, mas ele é cruel e rigoroso. 

          Como seria agradável e inspirador se conseguíssemos ver e sentir o mundo da mesma forma como as lentes do excelente diretor de fotografia mexicano Emmanuel Lubeski (Filhos da esperança, Queime depois de ler)  nos mostra. Se utilizando de movimentos suaves, enquadramentos inspiradíssimos e um olhar contemplativo único, Lubeski  cria fortes sensações através de suas imagens e mostra que sua parceria com Mallick é uma das mais interessantes do cinema atual. Lubeski acerta ao não se utilizar de aspectos estéticos para diferenciar os diferentes tipos de tempos, criando a sensação de estarmos sempre no mesmo tempo. 
        Tendo cinco montadores (geralmente não é um bom sinal, mas aqui foi uma escolha estética de Mallick),a montagem acompanha as mudanças do projeto. Em seu primeiro ato os cortes ocorrem de forma irregular e inesperada, eles  começam e terminam em momentos estranhos, causando a principio uma estranheza, mas junto aos sutis movimentos da câmera de Lubeski os planos ganham uma nova vida, é como ouvir uma banda de jazz improvisando, cada um em seu improviso, criando uma música surpreendente e inovadora. Em seu segundo ato, a montagem é mais sóbria, trazendo o espectador para dentro da realidade da família. (Um dos mondadores do projeto é o excelente brasileiro Daniel Resende). 

             Como protagonista o pequeno estreante Hunter McCraken brilha, em uma atuação intensa, o jovem consegue se expressar com facilidade e em nada perde para o casal de atores que interpreta seus pais. Como Mr.O'Brien, Brad Pitt (Clube da luta, O curioso caso de Benjamim Button) cria um personagem complexo, que mesmo autoritário a maior parte do tempo, consegue se mostrar amável em alguns momentos e é comovente a cena em que ele conta aos filhos de suas frustrações.  Jessica Chastain (A dívida, Vidas cruzadas) interpreta a Mrs. O'Brien, a personagem com a mais forte ligação com o lado espiritual da projeção. Totalmente submissa a sua fé e a seu marido, ela busca nos pequenos momentos com os filhos e longe dos olhos do marido, seus raros momentos de alegria, momentos estes em que ela surge como mais uma criança.  Fechando o elenco Sean Penn (Sobre meninos e lobos, Milk) surge em uma ponta de luxo. Ele interpreta Jack em sua versão adulta e tem muito pouco tempo de tela.                

          Assistir a Árvore da vida é uma grande experiência sensorial, que provoca diferentes sensações e opiniões. Um olhar muito particular do mundo e do ser humano. Um clássico por excelência, e com certeza um daqueles filmes que a cada nova visita, nos causará novas e diferentes sensações.   

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